sábado, 14 de janeiro de 2017

Notas sinceras II

Ela botou ovos de novo. Tadinha, ela acha que vão nascer filhotes, fica chocando, se alimenta pouco, defende os ovos. Todo mês é a mesma coisa. Depois de duas semanas os ovos tratados com tanto cuidado são abandonados. No supermercado foi a mesma coisa. Passei no caixa e deu R$ 3,04. Três e quatro é três ou três e cinco? com risadinhas inexplicáveis, de um ponto de vista prático.Três e cinco, com riso amarelo de quem não aguenta mais nada, mas fazer o que? Devia ser três né?, porque eles tem mais dinheiro que nóis. Não, porque isso e aquilo, com uma ignorância de fazer chorar por dentro da cabeça. Um centavo de cada cliente, se vende cem por mês dá um real roubado. Se no Brasil todo tem uns quinhentos Carrefour isso dá quinhentos reais roubados por mês, supondo que esse seja o único produto que vale centavo quebrado. Não, mas ta certo porque isso e aquilo. Tadinha, ela acha que tudo vai dar certo. Eu tava só brincando! Boa tarde!
Agora estou comendo o panetone. Antes comi um pedaço de manga e muitos fiapos ficaram presos nos meus dentes. Eu retirei eles com um pouco de dificuldade. Depois a caixinha de fio dental caiu dentro da privada. Inexplicável! Como você conseguiu? Eu tinha que contar pra alguém, mas não tem explicação. As pessoas fazem esse tipo de coisa o tempo todo, mas ficam encenadamente espantadas quando é outra pessoa que faz. Bem, de todo modo eu só contei porque dizer isso é melhor do que não dizer nada. Efetivamente isso coincide com o nada, a não ser por questões de custo. De todo modo, aquilo que custa acabará também por equivaler-se a nada assim que houver chegado o tempo para isso.
Quanto aos fiapos de manga, e se eu não conseguisse nunca ter tirado? Isso seria preocupante se eu não tivesse a mais completa certeza de que eles iam acabar saindo, por mais difícil que fosse. Não vou, nunca mais, comer manga quando chegar perto do caroço. Quando vi as pessoas comendo só até ali, onde os fiapos começam a enroscar, eu achei absurdo, que as pessoas são idiotas e que eu poderia comer mais do que elas sem nenhum problema. Essa não foi, contudo, a primeira vez que eu comi manga, então, apesar da vontade de fazer melhor que os outros, eu sabia que isso ia acontecer. O desejo de superar as pessoas bloqueou o conhecimento da realidade que eu já tinha, me levando a fazer o que claramente eu não deveria.

sábado, 7 de janeiro de 2017

Notas sinceras

Acordei sem banho, isso vem primeiro. Minha noite foi bem dormida. Assim que fechei a porta do quarto ele se tornou meu mundo, o único existente. Respirei fundo e quebrei na mente o impulso diabólico de, por todo o tempo, colocar coisas na cabeça, retirar coisa da cabeça. Por alguns minutos me concentrei nas partículas invisíveis das quais são feitas as coisas e os pensamentos. Depois agradeci aos tijolos e às portas de madeira, ao asfalto lá em baixo na rua, e finalmente, bem fraquinho ao solo e à água que passam debaixo dele. Todas essas coisas sou eu mesmo, no fim. Eu faço isso com os mesmos gestos que vi na televisão que os muçulmanos fazem, se curvando em direção à Meca. Eu acho bonito e perigoso o Islã.
Ninguém me deve nada. Nem respeito, nem consideração, nem gratidão, nem fidelidade, nem reciprocidade de nenhuma forma. Ninguém me deve nada. Quando eu me esqueço disso não corro nenhum risco de ser livre. Me amarro pelo ressentimento, pelo despeito e pela expectativa a tudo aquilo que independe de mim mais ainda que minhas próprias ações, elas mesmas imponderáveis, determinadas, do começo ao fim, pelo meu nascimento.
Acordei acariciado por incômodos antigos e com vontade de consertar o mundo com conhecimento. O conhecimento estava em mim e de mim ele transbordava afogando toda a humanidade em pacífica beatitude e fraternidade. Depois eu pensei "bobagem!" e tomei meu café acompanhado de pão com manteiga. Até quando eu terei café e pão com manteiga? Não importa. Quando não tiver eu lidarei com o fato de não ter e disso algo de bom surgirá, sem dúvida. Enquanto tem, tem. Ótimo.