terça-feira, 6 de dezembro de 2016

Problemas de consciência

As velhinhas na rua parecem tartaruguinhas. Pessoas-tartarugas assexuadas. Fazem bolinho para as crianças e nisso não há nada além de pureza. Outras pessoas são como pombos. Pombos bobos, pessoas-pombos. Elas vão andando, se mexendo pelas calçadas, de um lado pro outro. Se o sinal abrir elas atravessam, senão não. Algumas são atropeladas pelos carros e suas almas ficam esmagadas no asfalto até anoitecer, quando os varredores de rua recolhem seus pedaços e juntam tudo no misturador de almas individuais. Esses varredores tem, além das vassouras, asas, dentes afiados e bondade infinita. Não tem olhos nem ouvidos.
Eu estava sentado no meu banco enquanto observava esses movimentos. Um rapaz levava um cachorro pela coleira. Usava roupas de gente rica. Na outra mão ele tinha uma latinha de cerveja. Coberto de seriedade, ele me disse "as pessoas circulam pelas ruas da cidade como merda que navega pelos canos de esgoto." Eu achei um absurdo e rolei de rir por dentro. O cachorro olhava como se nada estivesse acontecendo. Era um cachorro caro, esnobe.
Silêncio e vazio no meio da correria durante anos, eu notei, de repente, como em um insight, no meio da multidão. "Estar a apenas um passo do abismo ou estar em uma planície interminável, é o mesmo, desde que eu fique parado", pensei. Agora, algo estava me incomodando, enfim. Eu não tinha como saber o que era.
Além das pessoas-tartarugas e das pessoas-pombos, havia as pessoas-peixe morto, eu acho. Também tem as pessoas-raposas. As pessoas-aves de rapina ficam escondidas dentro dos prédios, elas capturam suas presas pela internet. Os prédios tem ar condicionado para que seja possível, primeiro, às aves de rapina, usarem roupas para clima frio, terno, gravata, sapatos, mesmo em dias de sol. Segundo, para que os prédios, por fora, possam ser caixas de vidro espelhado, sem janelas. Bem, de todo modo, fui convidado a entrar. Logo de cara me serviram uma bebida poeticamente azul-da-cor-do-céu. Essa bebida, na verdade, era pinga, e, enquanto falavam comigo, em vez de prestar atenção, acabei me lembrando que eu havia passado o dia todo sem dizer nenhuma palavra. "E ontem? quantas palavras eu disse ontem?". Zero. Zero palavras.
Tudo bem.
Eles iam me dar um emprego, eu acho. Quando percebi que era esse o caso, tirei do meu bolso papel e caneta e escrevi o seguinte, " Eu gostaria, se não for um problema, de mais um pouco de café, não pinga. Além disso, devo dizer que no quarto onde moro há uma infiltração no teto, bem em cima da minha cama. Existe, se não me engano, o risco de um desabamento que talvez me aconteça durante o sono. Caso eu seja contratado, será um problema para vocês que meu corpo se misture de forma indivisível e impessoal ao bolor, aos tijolos, ao oxigênio e todo o resto?" Era um bilhete isso que escrevi.
Quando fui entregar aos chefes para que lessem, percebi que eles já haviam saído para o almoço.