quarta-feira, 30 de dezembro de 2015

Descaminho

"No momento em que eu nasci não havia nenhuma necessidade para isso". A opinião era tão extravagante que nem uma só pessoa pode permanecer na sala. Os visitantes iam dando desculpas e saíam da mesa para ir ao banheiro, ou fumar um cigarro, ou buscar alguma criança na escola. Eu, ao contrário, decidi permanecer. Peguei um guardanapo, anotei o que havia sido declarado por aquele estranho, e depois perguntei "como é isso?"
Ele estendeu o braço até o prato de farofa e serviu-se. Depois encheu o copo com mais vinho e começou, "é claro que morrer é uma coisa que não me interessa. Mas, começando pelo começo, não é possível deixar de acreditar que estou absolvido de tudo o que sou e de tudo o que não sou, simplesmente porque meu nascimento me colocou num ponto e não em outro."
"Certo", eu disse, e continuei anotando. O vinho derramou-se sobre a mesa e formou o rosto de Cristo, só que invertido.
Os visitantes, aos poucos, foram retornando à sala. Eles estavam brancos e suando sem parar. O representante deles se esforçou para dizer algumas palavras, ainda que não pudesse evitar tremores contínuos. Eu anotei o que ele disse e foi o seguinte, "nós decidimos que se o senhor tivesse apenas um braço, em vez de dois, isso não te daria o direito de usar apenas um talher à mesa. No entanto, nós admitiríamos que agisse dessa maneira."
Após essas palavras, todos sorriram e seguiram a refeição sem novos incidentes, até que o visitante-chefe soltou um pequeno grunhido e declarou "acredito que meu cérebro está agora se dividindo em dois!" O volume de sua cabeça expandiu-se visivelmente para comportar o novo cérebro que lhe havia nascido. Cada um dos cérebros tinha seu próprio modo de ver, ainda que ocupassem a mesma cabeça. O visitante-chefe fechou os olhos com serenidade e ficou claro a todos que a partir daquele momento ele bastaria a si mesmo para sempre.

Quando cheguei em casa tirei do bolso os guardanapos em que havia feito minhas anotações sobre aquela ceia inusitada. "Não encontro solução, não tem jeito..." Durante algum tempo quebrei a cabeça tentando encontrar um lugar seguro, coerente, no qual iam dar aqueles acontecimentos que havia observado. "Tudo tem um sentido, tem que ter..."
Impossível.
Decidi então que seria melhor jogar fora aqueles papeis mal escritos. Deixar tudo isso de lado e permanecer em silêncio. E o silêncio, em si mesmo, engendrou o sentido.
Ainda assim, em algum lugar, persistiu a pulga atrás da orelha e o desejo de desassossego. Nova decisão: escrever, "só mais uma vez", sobre esse silêncio, tão difícil de alcançar. Então escrevi sobre o silêncio, sem me dar conta de com isso tê-lo, irremediavelmente, quebrado.

domingo, 13 de dezembro de 2015

Reinversão

"Outro dia eu pensei que estava com os olhos abertos, mas daí eu abri eles e então percebi que estavam fechados", falou e rompeu na gargalhada mesmo tendo a boca cheia de comida e a comida caía pra fora em cima da mesa. "Complicado..." pensei.
A sala estava completamente vazia, mas isso não resolvia nada. As paredes ainda estavam lá marcando os limites. Pela janela dava ainda pra ver os móveis jogados no meio da rua atrapalhando a passagem das pessoas. "Tanto faz, elas não sabem mesmo pra onde vão". De todo modo, esse transtorno não era suficiente para que essas pessoas de fora fossem completamente impedidas de seguir seus caminhos. Elas acabavam passando, desviavam da escrivaninha atravessada no chão, escorregavam por cima dos livros amontoados na calçada, colocavam de lado algumas cadeiras e camas e seguiam adiante.
Resolvi recolher as coisas, colocá-las de volta pra dentro. Quando percebi estava deitado no chão, descansando. Fingia que estava acordado quando ouvia algum barulho. Essa atitude durou por todo o tempo. "O tempo, então, perdeu-se" pensei.
Quando me levantei do chão notei, no entanto, que estava enganado.
Algumas pessoas que passavam ajudaram a atear o fogo sobre as coisas que permaneciam espalhadas pela rua.
Aquelas coisas, depois de algumas horas, foram completamente reduzidas a cinzas e puderam assim ser facilmente varridas para dentro. "Inevitavelmente, de qualquer outro modo, os móveis teriam continuado a ser peças separadas. Apenas agora, que já são cinzas, eles existem como unidade. As coisas se tornaram pacificamente indistinguíveis umas das outras. Ótimo! Mas, nessas condições, isso já não presta mais pra nada. São apenas cinzas, não é mesmo?" Essas conclusões breves eu disse ao dono do bar da esquina, cuja postura era de uma indiferença indisfarçável.
Tudo isso teria, no dia seguinte, desdobramentos, consequências, prosseguimento, negação. Mas já era fim da tarde e o sol que logo em seguida se pôs, inesperadamente, não voltou a nascer. De qualquer forma, ninguém poderia adivinhar que justamente agora seria assim.

sexta-feira, 27 de novembro de 2015

Deslibertamento

Dento do quarto o pó se acumula sobre os móveis e sobre objetos antigos já sem nenhuma serventia. Os livros começam a se embolorar. Suas páginas se tornam uma massa informe cheia de palavras que já não podem mais ser lidas. Tornaram-se, enfim, adubo, para plantas inexplicáveis que vão crescendo de dentro deles e derramando seus ramos pela capa até alcançarem o chão.
Nenhuma palavra dita ao longo do dia. De forma alguma isso significa que elas deixaram de existir no interior da mente. Lá elas vão fermentando, produzindo ideias alucinógenas. Impossível permanecer quieto na cadeira. Me levanto, ando pelo quarto e percebo que as paredes estão muito próximas. Melhor seria ir até a rua.
Me lembro de ter visto, uma vez, duas lontras numa jaula, e elas percorriam correndo todo o perímetro em torno do mini-lago clocado ao centro. Havia também umas plantas que o planejador da jaula deve ter julgado que simulavam a natureza. As pessoas em frente à jaula rangiam os dentes, nervosas com aquele movimento frenético, sem fim e sem saída. Tapavam os olhos das crianças, e quando elas perguntavam "mãe, mas porqu..." tapavam-lhes também a boca. Como poderia alguém exigir que aquelas lontras decorativas ficassem paradas? Seria melhor, seria mais inteligente, mais confortável até, uma vez que a corrida era evidentemente inútil.
Eu ia pensando nisso quando lá de fora uma voz grossa começou a dizer muito alto "A vida estraga o homem e os animais. Presos em seus escritórios desenvolvem manias e obsessões. Certos pássaros exóticos, por exemplo, quando domesticados escapam da morte acidental a que estariam sujeitos na natureza, mas desenvolvem sentimentos de posse, vaidade, posições políticas." Era como se meus pensamentos tivessem sido adivinhados. Olhei pela janela e ele estava lá, encostado no poste, embriagado de bobagens, falando suas verdades. Imediatamente corri para a cozinha e peguei uma garrafa. Quando voltei ele já não estava mais. Joguei, mesmo assim a garrafa, que estourou no poste espalhando cacos em vão.
 

sábado, 14 de novembro de 2015

Lateralidades

A viagem era muito longa, impossível permanecer sentado tantas horas sem ser tomado por grandes incômodos. Percebi, felizmente, que quando eu me concentrava apenas nos sons feitos pelas patas dos cavalos ao chocarem-se com o asfalto, o tempo passava sem dúvida mais rápido. Na verdade, melhor ainda, ele deixava de existir. "O que aconteceria se eu me dedicasse, daqui em diante, apenas a ouvir os sons das patas dos cavalos batendo contra o asfalto?" Esse pensamento trazia uma sensação tão agradável, que imediatamente eu fazia um pequeno esforço para me desviar e prestar atenção em qualquer outra coisa, até que de novo viesse o mal estar.
Eu ficava olhando as casas à beira da estrada conforme a carroça ia deslizando de uma cidade para outra. Dentro de cada casa havia um certo tanto de pessoas e não havia diferença nenhuma entre elas. Elas deixavam as luzes acesas quando anoitecia, depois apagavam e iam dormir. Havia os doentes que passavam por dores noturnas incontroláveis e os bebês pequenos que choravam por seus próprios motivos. Ainda assim, claramente, eles eram sempre os mesmo em todas as casas e todas as cidades, também iguais umas às outras.
Uma parada foi feita em um galpão enorme no qual havia pelo chão inúmeras coisas quebradas impossíveis de identificar. Alguns trabalhadores em uniformes horríveis estavam sentados no chão mascando pedaços longos de mato. Um deles se aproximou da carroça com uma alegria inexplicável arrebentando no meio da escuridão. Ele era o responsável por limpar os cavalos, e ele cantava músicas inventadas de sua própria cabeça enquanto esfregava o pelo dos animais exaustos. Quando acabou ele disse "boa noite!" aos passageiros, dos quais não obteve resposta.
"A ideia de paz interior de Santo Agostinho é muito oportuna aos dias de hoje. Na antiguidade, mesmo um escravo podia ser livre sendo escravo, caso fosse livre em seu interior." Foi isso que eu falei pra moça ao lado. Ela não achou a menor graça, como se nunca tivesse ouvido nada mais idiota em toda sua vida, e depois voltou a dormir.

terça-feira, 27 de outubro de 2015

Considerações sobre o problema da ação no mundo

I- Observações parciais sobre a liberdade : elementos entre Henry David Thoreau e Henry Miller

Esse ensaio pretende discutir a liberdade individual tal como é entendida por H. D. Thoreau e Henry Miller em suas obras Walden e Krishnamurti. 
A validade da comparação tem como motivação o fato de, primeiramente, tratarem-se de textos nos quais é celebrada, com todo o entusiasmo, a liberdade individual como força realmente transformadora. O argumento, facilmente enquadrado como liberal e, portanto, incapaz de resolver em toda sua extensão o sofrimento social humano, parte, entretanto, de dois desajustados distantes da ideologia do mérito, nascidos nos Estados Unidos.
Henry David Thoreau (1817-1862), em seu livro Walden  faz o elogio do indivíduo capaz de transformar a si mesmo ao retirar-se da sociedade em favor de uma vida nos bosques. Ao avaliar sua experiência realizada quando tinha por volta de trinta anos, o autor enfatiza o despropósito da vida média americana, interminavelmente consumida pelo trabalho e, ainda mais, alimentada pela esperança ilusória de que um dia chegará o momento de colher os frutos de tanto esforço para, enfim, descansar. Ao criticar a escravidão negra que a seu tempo ainda persistia nos estados do sul, Thoreau aproveita para evidenciar que o pior capataz é aquele que cerceia a si mesmo, o que não faltava entre os brancos do norte.
Henry Miller (1891-1980) dedicou um dos capítulos de seu Books in my life à reflexão sobre o indiano Krishnamurti (1895-1986), o qual não chegou a conhecer. O problema do indivíduo, de fato é recorrente na filosofia indiana contemporânea. Seu sucesso comercial no ocidente aparece, portanto, no mesmo nicho de mercado ocupado pela psicanálise, graças à ansiedade generalizada existente entre os homens e mulheres daqui para resolverem sua profunda fragmentação. Como adverte o próprio Krishnamurti, a filosofia indiana, que aqui é vendida como literatura esotérica, ao lado da auto-ajuda e dos livros motivacionais, nada pode fazer, desse modo, contra nosso mal-estar. O que acontece é que, como aponta Krishnamurti, a difusão, por exemplo, da meditação entre os homens de negócio atendeu à demanda de fazer acalmar para ajudar a ganhar mais dinheiro. Nesse sentido, no ocidente a meditação é usada como medicação, utilitariamente, deslocada de sua natureza original. Mais que um meio para a obtenção de um fim específico - e estranho ao meio - na Índia a meditação é parte de um modo de vida no qual o eu se encontra consigo mesmo.
Henry Miller se inspira profundamente nos ensinamentos de Krishnamurti, sobretudo ao deparar-se com a ideia de que o homem é o único libertador de si mesmo. Em vez de passar a vida toda dedicado a transformar o mundo para que, aí sim, passem a existir condições para a mudança do indivíduo, Krishnamurti propõe que está no próprio homem o poder para algo, na verdade muito simples: ser ele mesmo. Nesse sentido, minha liberdade para ser eu mesmo é muito diferente de poder ter a liberdade de ser quem eu quiser ser, o que, aliás, por não ter sentido, deverá levar a um contínuo processo de frustrações.
Ponto comum para Henry Miller e Thoreau é a negação da autoridade, seja ela qual for. Thoreau duvida abertamente que os velhos tenham realmente algum bom conselho a dar. Eles são, para o autor, os guardiões de velhos medos, transmissores de modos cautelosos cuja função será refrear os impulsos para experiências criadoras. Henry Miller se apoia no ideal de Krishnamurti de que não deve haver nenhum mestre, não deve haver quem queira seguidores. Recusando a posição de mestre recusa-se a vaidade, que ao cristalizar imagens do eu frequentemente muito distantes da realidade, aparece como mais uma prisão. Se há homens livres, seu papel é contribuir para a libertação de todos. Henry Miller destaca ainda que, para Krishnamurti, a vida é de uma simplicidade brutal. É o apego aos emaranhados teóricos propagados pelos "mestres" que faz amar a busca pela resposta difícil que será solucionada em algum ponto indeterminado do futuro. Para ver a resposta simples é preciso duvidar de tudo o que se diz ser certo ou errado. Tudo. De fato, é inevitável que esteja perdido e que se perca cada dia mais quem quer que se ocupe em citar autoridades e se identificar a elas, depositando confiança cega em suas palavras. Em pouco tempo uma doutrina religiosa, teórica ou política que eu me veja impelido a defender tomará posse de algum espaço interior meu importante para definir o que sou. Acontece que ela veio de fora.

II- Sofrimento humano: apontamentos acerca do filme 12 anos de escravidão

Será possível, então, independente da situação em que eu me encontre, tomar as rédeas do destino? Evidente que não. Há na história inúmeros exemplos de violência e opressão que reduzem drasticamente o alcance da ação individual na direção da liberdade. A escravidão negra colonial, sem dúvida aparece como um dos casos mais graves de destruição da potência humana.
Ao abordar o assunto, o filme 12 anos de escravidão (2013) propõe, acima de tudo a sensibilização pelo choque que a exposição direta da violência é capaz de provocar.
Acrescenta-se a isso uma certa sutileza no desenvolvimento da narrativa, cuja qualidade é provocar, mais que o mero choque da violência, o desespero pela asfixia na desgraça, uma vez que permite ao espectador imaginar-se em uma situação inescapável. Nesse sentido coloca-se diretamente a questão daquilo que o indivíduo é capaz de fazer por si, quando os escravos percebem que devem adotar estratégias de cooperação e obediência a fim de sobreviverem, em vez de se revoltarem contra seus opressores. Essa questão é colocada em tensão com as recorrentes cenas de abuso e castigos corporais, - que levam a mente a imaginar sua variedade e intensidade intermináveis - sempre acompanhados por uma passividade sem saída da parte dos escravos, já amortecidos, mesmo em seu íntimo, pela força da dominação. Essa tensão surge como elemento do filme que tem como finalidade provocar no espectador irritação e empatia, que por ser nele - ainda mero espectador - superficial, o leva a fantasiar sobre a rebelião que faria se fosse ele o escravo. A reflexão decorrente desse sentimento, obviamente acaba por gerar, finalmente, depressão, dado que não se trata apenas de um filme mas, sabidamente, desde o início, de um filme sobre acontecimentos reais existentes ao longo de séculos. O espectador, nesse momento, se dá conta de que seu desejo de rebelião acabou por criar uma esperança de transformar o passado para refazê-lo de um jeito melhor. Esse último passo da sensibilidade diante do filme acaba por converter qualquer disposição em pessimismo e impotência, o que acompanha o próprio desfecho do filme, assim que nos lembramos que o passado não pode ser mudado - e talvez nem redimido.

III- Inevitabilidade do mal e sensação de beco sem saída: arbitrariedades sobre Lima Barreto e Jean-Paul Sartre

Conforme não se pode deixar de ver, portanto, que o mal está em todos os lugares, não é de se espantar que exista entre muitas pessoas sãs uma total desesperança com o mundo. Essa perspectiva leva ou ao suicídio ou à variações entre cinismo e masoquismo. Quanto à segunda opção - que é a que interessa nesse momento - trata-se de uma disposição segundo a qual as pessoas desenvolvem fascínios estéticos por aquilo que as faz sofrer, o que, de modo algum ameniza o sofrimento.
Em seu livro A idade da razão, Jean-Paul Sartre criou Mathieu, cujo principal objetivo era ser completamente livre. As circunstâncias do mundo, no entanto, cada vez mais vão frustrando as expectativas de Mathieu e, mais que isso, vão levando-o a acreditar que sua liberdade ou é falsa ou não lhe traz nada de bom. Lima Barreto em seu Vida e morte de M.J. Gonzaga de Sá apresenta Augusto Machado que, como Mathieu é um intelectual com problemas de intelectual. Ele vê a maldade, a injustiça e a incompreensão consolidadas e disseminadas pelo mundo. A ponto de não suportar seu entendimento das coisas Augusto Machado observa tragicamente a (suposta) tranquilidade da vida dos pobres e ignorantes que, apesar de terem seus sofrimentos, levam suas vidas cotidianas sem grandes preocupações, cheios de distrações leves, bastando-lhes qualquer banalidade. Ele deseja, então, ser outro, ter uma mente simples mas, imediatamente, sabe que não é possível: está condenado a pensar demais sobre todas as coisas. O mesmo acontece ao Mathieu de Sartre. Ao perceber que sua valiosa liberdade era bastante duvidosa e certamente sem sentido, ele se vê incapaz de tomar atitudes concretas na direção da transformação. O problema para Mathieu é que atitudes concretas implicariam incoerências, contradições, e dilemas entre convicções inconciliáveis no interior da ordem abstrata de sua mente.
Mathieu e Augusto Machado estão paralisados diante da relação entre o que é e o que poderia ser - sem contar o desejo de que certas coisas não tivessem sido. A beleza dessa paralisia é inegável.
Sartre e Lima Barreto morreram esperando por um mundo melhor. Sartre bem que fez o que estava a seu alcance para mudá-lo, mas dificilmente se poderia dizer que conseguiu muito mais que acumular egocentrismo e amargura. Lima Barreto acabou por encenar na própria vida a tragédia de sua literatura.

sábado, 24 de outubro de 2015

Transfiguramentos

No muro de um prédio antigo alguém pichou "Vamos devagar porque temos pressa". Dois pintores, sem ler o que pintavam, iam pintando de bege o muro histórico, devolvendo a ele sua pureza original do século XIX. Estavam apenas fazendo seu trabalho.
Então começou a chover e de repente a chuva já era muita. Não demorou para que ela lavasse da parede a tinta nova, a pichação, a tinta velha. Em seguida, dissolveu como açúcar os tijolos, os pintores e o prédio inteiro, que transformados numa mistura líquida nojenta de café com leite, desceram pelo bueiro.
Do outro lado da rua um velho mendigo assistia ao acontecimento como se, daquele momento em diante, estivesse tudo acabado. Sem poder fechar a boca, ele estava paralisado segurando seu bloco de notas e sua lapiseira. Percebi que ele não poderia mais continuar com suas anotações. Os olhos estavam fixos no vazio que sobrou depois da chuva.
Quando eu era criança aprendi que não faz bem sentar na calçada nem colocar a mão nas paredes e nos postes da rua porque os mendigos ficam sempre se encostando neles e transmitindo doenças. Era como se eles sujassem a cidade e não o contrário. Mesmo assim achei importante saber o que ele estava escrevendo, e que agora já não tinha mais motivos para continuar. Então me sentei ao lado dele e notei que ele estava pensando que era uma pena o fim da melancolia irônica destruída pela chuva. "Vamos devagar porque temos pressa", era uma bela lição, ainda mais por ser ignorada por todos os passantes, tanto quanto por quem quer que tenha pago pintores para ocultá-la.
"De todo modo", disse a ele, "talvez não valha mesmo a pena, que acha?" e, em seguida, argumentei "Agora, afinal, há espaço para coisas novas, aberto pelo próprio acaso, talvez..." O velho  não se animou a responder nada e, inexplicavelmente, começou a chorar como criança. Não podia mais parar. Claro, não demorou muito para que eu entendesse que aquilo não tinha solução. Decidi, então, pegar um livro na minha mochila. Abri e fiquei lendo.  

quarta-feira, 7 de outubro de 2015

Breve estudo comparativo entre as cidades de Campinas e Vitória

1- Considerações iniciais

A construção do espaço urbano de Vitória, em certo sentido, na região compreendida entre o centro e o aeroporto, apresenta uma lógica semelhante a que se pode identificar em Campinas.
Essa impressão surge primeiramente ao andar pelo bairro do Canto da Praia e pela Avenida Nossa Senhora da Penha. Essas localidades, considerando-se a comparação aqui proposta, correspondem em Campinas, respectivamente, ao bairro do Cambuí e à Avenida Norte-Sul. Trata-se, portanto, de regiões de alto padrão e de negócios. É preciso dizer, ainda, que embora exista semelhança visível na disposição dos elementos dessas paisagens urbanas, a diferença de proporção entre uma cidade e outra, surpreendentemente é muita. A avaliação feita nesses termos justifica-se uma vez que a população de Campinas supera a de Vitória em mais que o dobro e, no entanto, em Vitória as regiões mencionadas são muito maiores. Dessa observação que toma a liberdade de prescindir de dados concretos, concluo que, primeiro, o capital investido na construção da área urbana de Vitória é maior que em Campinas e, em segundo, que a concentração de renda em Campinas é maior que em Vitória. Claro que várias objeções são possíveis à essas afirmações. Uma delas - ainda sem considerar o que sem dúvida poderia ser dito a partir de dados oficiais - é a tendência que existe em Campinas, já nos últimos 15 ou 20 anos, de que a elite e a classe média alta optem por viver em grandes condomínios fechados instalados nos arrabaldes da cidade. Esse fenômeno que parece não ocorrer em Vitória pode ser explicado também pela impossibilidade de expandir a área edificável do Cambuí. Outros bairros de elite, como o Taquaral, são mais recentes e também estão distantes do centro.
Quanto à formação histórica, o Canto da Praia é próximo do centro apenas relativamente, considerando-se que as distâncias são maiores. Sua ocupação parece ter sido recente, dada a ausência de casarões e sobrados de arquitetura típica do final do século XIX e início do XX, como no Cambuí se pode ver.

2- Descrições pontuais

Tanto a Avenida Nossa Senhora da Penha como a Norte-Sul são vias de alta velocidade que ligam regiões distantes da cidade. Indispensável dizer que, no caso de Vitória, a ligação é feita entre a parte continental e a parte insular, e que a expansão do território é inevitavelmente limitada pela presença do mar.
Além de serem vias de alta velocidade, a Avenida Nossa Senhora da Penha e a Norte-Sul, têm instalados ao longo de sua extensão, predominantemente grandes edifícios, raramente com mais de vinte anos, de uso empresarial. São prédios comerciais e de escritórios, muito altos, feitos destacadamente de vidro espelhado e aço, cravados em ambos os lados dessas avenidas que, além de serem longas são especialmente largas, justamente para suportar o tráfego ininterrupto que foram destinadas a receber, sem comprometer a velocidade - o que nem sempre é possível em nenhum dos dois casos.
Os pedestres nas calçadas, tanto da Norte-Sul como da Nossa Senhora da Penha, se comportam de acordo com a mesma lógica dos automóveis, segundo a qual funcionam tanto Vitória como Campinas. Os pedestres estão de passagem, andando o mais rápido que podem, obviamente sem olharem uns para os outros ou para o que quer que seja, como insistentemente nos lembram Engels
e Baudelaire. Há certa altura da Nossa Senhora da Penha, um cachorro morto mal embrulhado num saco preto foi largado ao lado de um poste. O sangue que empoçava debaixo do saco ia escorrendo por toda a calçada e sendo pisado pelos passantes que, um após o outro, não se davam conta daquela morte recente provocada, aliás, pela velocidade necessária àquela avenida.
O cachorro deve ter sido retirado rapidamente da rua, logo após o atropelamento, para que a vida seguisse na direção sabe-se lá do que. O sangue ia sendo pisado pelos passantes que, além do mais, não raro, não podiam  mesmo ver onde pisavam por estarem com as vistas ocupadas com seus iphones. Essa questão dos iphones, sem dúvida, em poucos anos - se tanto - deverá deixar de causar indignações pontuais para passar a ser um fato natural e indispensável da vida urbana moderna.
A poucas quadras de distância da Avenida Nossa Senhora da Penha fica o bairro do Canto da Praia, como fica o Cambuí a poucas quadras da Norte-Sul. Ambos têm alguma coisa de cidade-jardim, com arborização como não se vê em qualquer parte da cidade. A ocupação fundamentalmente verticalizada tem uma forte presença de vidros foscos e materiais de acabamento como gesso, granito, mármore e madeira. Há também composições com concreto armado à mostra, misturando elementos arredondados e aerodinâmicos. Essas combinações são típicas do gosto das elites a partir de meados do século XX, quando assumiram a modernidade como estilo - ainda que sem dispensar as antiguidades -, sempre aliadas a despojamento e honestidade dos materiais, os quais, de todo modo, deverão ser reconhecidamente nobres. Por fim são indispensáveis os jardins, sempre bem cuidados.
Esses edifícios residenciais são entremeados por comércios, restaurantes, bares, padarias e academias de ginástica, todos luxuosos cujas fachadas são compostas segundo o mesmo padrão de gosto que, generalizado por toda a extensão do bairro, assume para seu morador, inequivocamente, o caráter simplesmente de bom gosto.
No Cambuí, como no Canto da Praia, as ruas são de baixa velocidade, como é habitual no que historicamente se chama de "bairro residencial", frequentemente em distinção ao distrito industrial, mas também, sem nenhum constrangimento, ao "bairro operário". A vida vivida neles favorece o passeio em segurança para crianças e idosos e cachorros caros, ainda que se possa andar durante horas sem encontrar um lugar público para se sentar. Isso porque, predominantemente, as pessoas saem de casa para o clube, para a padaria, para o restaurante; o consumo naturalmente é o intermediário inevitável e inquestionável da sociabilidade. O bom gosto da arquitetura, da arborização e do traçado das ruas é o mesmo que se observa nos corpos dos moradores do bairro, velhos ou jovens, homens ou mulheres - está personificado neles -, nos quais se vê a marca do tempo livre bem utilizado nas academias de ginástica. No Canto da Praia, claro, as atividades físicas são realizadas também na própria praia, o que aparece como um fator a mais para definir o modo diurno de vestir, o qual é marcado pela simplicidade das roupas esportivas que não são, de modo algum, baratas. A simplicidade no vestir, como na arquitetura e nos modos, é recorrente na elite, como distinção em relação ao exagero e à ostentação que caracterizam o desejo desinformado do pobre e da classe média quando querem ser chics. Distingue também do novo rico, morador de condomínio fechado, quando deseja mostrar que é bem sucedido sem, no entanto, poder negar inteiramente suas origens modestas. No Cambuí, mesmo sem a presença da praia, o corpo cuidado com exercícios regulares e alimentação nutricionalmente bem orientada também é exibido em roupas esportivas - por jovens e velhos, mulheres e homens - estimulado pela presença de diversos clubes.
Com isso tudo, gente pobre vinda de outros lugares é imediatamente identificada, uma vez estabelecida, no nível do visível, no cotidiano, a desigualdade estrutural, na qual se baseia o modo como existem as redes de cidades que, por sua vez, definem a vida moderna. A polícia passa bem devagar ao lado desses intrusos para ter certeza de que não há no mal gosto de sua presença alguma intenção de ferir a ordem regularmente instalada. Nos bairros de classe média, faxineiras, porteiros, jardineiros e empregados usam no trabalho suas roupas velhas e sujas que, sem dúvida os distinguem. No Canto da Praia como no Cambuí, de acordo com a centralidade do bom gosto na vida, eles vestem, talvez na maioria dos casos, uniformes, o que marca de forma discreta e organizada sua posição durante o tempo que permanecem no bairro. Além do mais, a maioria deles é formada por pretos; os moradores, em sua maioria, são brancos. Em contrapartida, na favela - ou na cadeia - os pretos são maioria. A não ser que se acredite em superioridade racial, este é um fato especialmente desconfortável para as não poucas pessoas que acreditam que a escravidão aconteceu há tanto tempo que já não tem mais nada a ver com os problemas sociais do Brasil de hoje.

3- Observações paralelas

Caberia dizer ainda que, tanto do ponto de vista da disposição dos elementos urbanos como do estilo de vida predominante, a parte sul do continente, ou seja, os bairros imediatamente anteriores aos aqui analisados - antes de atravessar a ponte - correspondem, em comparação a Campinas, a uma mistura entre Castelo e Barão Geraldo.
Essa região de Vitória que eu vou designar por Jardim da Penha e Camburí é também próxima à UFES, apresentando, portanto uma vida universitária que se mistura aos diversos eventos que ocorrem no bairro. O Jardim da Penha é habitado por uma população de classe média, de modo que a maior parte dos comércios, como das residências - quase exclusivamente prédios de apartamentos - não pode ser classificada como luxuosa, mas de padrão caracteristicamente médio.
Claro que essa última comparação só é possível com aproximações ainda mais imprecisas, tendo em vista que  Barão Geraldo é afastado de Campinas, a ponto de que a vida universitária da Unicamp é praticamente irrelevante para a sociabilidade do Castelo e de outros bairros mais ou menos próximos a ela.

  

segunda-feira, 28 de setembro de 2015

Otimismo parte 3: a inconformidade

Saí da cama sem nenhuma pressa, eram quase nove horas. Ontem pedi demissão meio como surpresa pra mim mesmo, sem planejamento, sem avaliação do que se perde e do que se ganha. "Se todo mundo pudesse fazer assim, a civilização desabaria?", pensei.
Saí pra rua, andando sem lugar definido para ir, e conforme minha latinha de Bavária chegava ao fim, alguns pensamentos me faziam rir sozinho. Eu tentava disfarçar dos passantes o riso sem propósito visível.
Entrei no supermercado para comprar mais uma e me deparei com a vidinha besta e mal paga das moças dos caixas. Ocupadas com serviço tedioso, distraídas com intrigas vazias, mesquinharia, enquanto lá fora o sol ia fritando o asfalto. De todo modo, me limitei a recusar a Nota Fiscal Paulista e entregar dois reais em moedas miúdas. Já saí bebendo e fui na direção do mar.
Me sentei e fiquei lá olhando as ondas. Algumas imagens de futuros possíveis vinham chegando e eu não estava interessado. As referências do passado, por sua vez, iam se dissolvendo fácil na cerveja bebida antes do almoço. A inconsistência do instante, então, se mostrou com solidez. "O agora, ao negar-se a si mesmo, enfim apresenta-se como o real de fato", pensei.
Tomei mais um gole e decidi andar, mas assim que me levantei do banco encontrei debaixo dele um pedaço de papel com coisas escritas à lápis. Era um bilhete que dizia o seguinte:
"Aquilo que você gosta em mim é justamente o que eu não posso mais ser. As coisas que eu digo, que você considera agradáveis de se ouvir, são bem aquelas que agora já não me interessam. O que você acha que precisa me contar eu já não quero saber. Que fazer então com toda essa nova inconformidade?"
Assim que acabei a leitura do bilhete não pude evitar achar muito estranho que uma pessoa tivesse a insensibilidade de escrever tais grosserias a quem quer que fosse. Guardei o papel no bolso e segui o rumo.


quinta-feira, 17 de setembro de 2015

Mais um passo

"Esses movimentos involuntários da mente, eles vêm e vão. Acontece que desde ontem eu decidi não dar mais atenção a eles." Essas palavras caíram como um raio na mesa que eu havia escolhido para passar as últimas horas. Elas vinham do sussurro displicente e rouco disparado por um adolescente que tinha acabado de chegar. Ele estava encostado no balcão e dirigia suas novas conclusões à moça que lhe servia o café. Essa moça era a funcionária do bar e estava apenas fazendo seu trabalho, enquanto ouvia com uma indiferença inigualável as verdades e mentiras gratuitas que lhe atiravam.
Fechei meu livro e comecei, discretamente, a anotar as palavras ditas pelo adolescente. Ao perceber essa minha atitude, a mente do rapaz fez um de seus movimentos involuntários e por pouco ele não começou a se sentir como um grande sábio. Deixou que a coisa passasse pela mente sem alimentá-la.
Decidi sair e pegar o ônibus. Ao meu redor quatro conversas eram distinguíveis. Elas tinham a função de contaminar o ônibus inteiro com ressentimentos e invejas inconfessáveis. O ódio que transbordava nos juízos ditos a respeito de terceiros ia preenchendo todos os espaços até que sufocasse mesmo os passageiros mais silenciosos. Claro, ao ouvir a história sobre a secretária do chefe, que é uma mulher "falsa, oferecida e incapaz de cuidar da própria vida", começou a brotar na mente da japonesinha sentada logo ao lado, sua lembrança sobre o tanto que era inconveniente a Rita, que todos os dias na faculdade precisava relatar quantos sapatos e vestido novos e não sei mais o que, tinha comprado e era muito caro, etc. Daí a japonesinha, sem perceber, logo estava rangendo os dentes e agarrando com ainda mais força seus cadernos.
Desci do ônibus e comprei uma cerveja. "Isso não tem conserto."
Com certeza ninguém faz por mal. Seria mais fácil se fizesse.
Cheguei em casa e fui direto pro quarto. Minha cama não estava. Deitei no chão e comecei a ouvir um ruído. Era o prédio ao lado que estava desabando. Mais um ruído e caiu mais outro prédio, bem de frente, bloqueando a rua.
Continuei deitado e senti paz de espírito.

quarta-feira, 9 de setembro de 2015

Imponderáveis

O ônibus às vezes demora pra chegar. Os momentos de espera são sempre mais difíceis quando a gente acha que a vida tem um sentido. Uma vez abri um livro para transformar a espera em tempo útil. A leitura, no entanto, ia emperrada pelo pensamento insistente que dizia que fazendo isso eu encontrava sentido pra vida fora da vida, na vida escrita há décadas. Complicações.
Melhor deixar de lado a literatura e observar as pessoas. Elas são sempre as mesmas, é uma fatalidade. Comprei uma cerveja e isso sim mudou as pessoas. O ônibus chegou e eu subi com a latinha aberta, nenhum problema.
Mesma coisa é a fila do banco. Nos filmes essas coisas até acontecem, duram alguns segundos pra simbolizar o tédio. De outro modo, aparece alguém com a audácia de dizer algo extraordinário, puxar conversa. Na vida real isso seria um privilégio. Segue a espera. Às vezes a gente espera por algo importante, por algo que exige tempo mesmo. Já outra coisa é esperar para pagar uma conta, para resolver detalhes burocráticos, mal entendidos de contratos. Diante desses momentos inevitáveis, a sanidade depende da confiança na aleatoriedade despropositada da Vida. Pequenas alegrias irão compensar tais amolações.
Quando chegou minha vez perguntei, "Mas e a soma das esperas todas? Há tempos curtos e tempos longos. Quero viajar no fim do ano que vem, por exemplo. Até lá preciso juntar dinheiro, resolver as coisas, finalizar compromissos." - "Esperando o que? Esperando por que?", respondeu o atendente. Peguei meu boleto e fui embora.

quinta-feira, 27 de agosto de 2015

Refluxos

Não ter compromissos nem urgência, às vezes pode ser positivo, por exemplo, nos dias em que acabamos entrando no ônibus errado. Em vez de pedir desculpas ao motorista e descer o quanto antes, é muito mais produtivo, aceitar o descuido inexplicável como destino e permanecer para saber onde vai dar. Basta tomar alguns cuidados. 
Quando cometi esse engano semana passada, acabou que o ônibus foi me levando para um lugar onde não ia já há muitos anos. Percebi logo que era justamente o bairro onde morei por toda minha infância e início da adolescência. Imediatamente percebi que as casas, prédios, árvores e o próprio traçado das ruas, estavam impregnados de alguma substância maligna que me dava vontade de vomitar.
Claro, isso não foi de se estranhar. Bruscamente, sem que eu soubesse pra onde estava indo, me deparei com todas aquelas coisas antigas, misturadas a coisas novas e estranhas, e descobri que elas guardavam nos próprios tijolos o  testemunho do meu surgimento no mundo.
Quando o ônibus passou na frente do prédio em que morei, eu estava pensando sobre quantas pessoas tinham se mudado também, ou morrido, ou vindo morar ali, "quem estaria dormindo no meu antigo quarto?!" Bem nesse momento entrou no ônibus uma antiga moradora do prédio, que era conhecida por ser louca. Aproveitei para descer.
Imaginei que seria doloroso esperar por outro ônibus, então decidi ir andando até o centro. E, de fato, conforme ia deixando para trás o bairro da infância e me aproximando das regiões simpáticas do centro, ia sentindo alívio. "Aquilo tudo continua lá", concluí. Pelo menos tá longe.

sexta-feira, 21 de agosto de 2015

Otimismo parte 2: a desintegração

"Jesus pra mim é um amigo", ele disse e depois pediu mais um pastel. A moça concordou e anotou o pedido. "Mas pastor é ladrão, engana as pessoas". A moça concordou de novo. Mais pro lado um velho ia ouvindo a conversa e pensando que quase sempre as pessoas se enganam sobre as coisas que dizem. Na maioria das vezes não se cogita que aquilo que se diz não tem nada a ver com as verdades das coisas. De todo modo, é justamente isso que faz alguém ser uma pessoa e não outra. Essas conversas são sempre um pouco cansativas, de modo que decidi ir para outro lugar.
O sol estava muito forte e me fez entrar na igreja para me esconder. Era dia das mães e o padre estava falando sobre a Virgem Maria que, segundo ele, teve uma maternidade muito conturbada desde a gravidez até a morte do filho. Embora o assunto fosse sério, como de costume, às crianças é permitido correr dentro da igreja. É sempre impressionante observar que algumas delas são capazes de correr e, ao mesmo tempo, darem atenção ao sermão. Foi desse modo que durante a explicação sobre a Virgem, uma menina saiu da brincadeira olhando curiosa para um bêbado parado perto da porta. Ela perguntou para o bêbado o que teria acontecido caso Maria tivesse, espontaneamente, abortado. "O Cristo, então não teria nascido", veio como resposta indiferente.
Eu saí da igreja e subi na bicicleta. Pedalar no meio dos carros, na contra mão, quando é preciso, é sempre uma sensação muito interessante. Se a mãe fosse avisada a respeito disso ela não dormiria, certamente, mais uma noite sequer.
Mas e se a Virgem tivesse abortado? Eu pensei que eu gostaria de acreditar que às vezes não há nenhuma diferença entre uma pessoa fazer uma coisa e não fazer nada - ou fazer o contrário.

quinta-feira, 13 de agosto de 2015

Otimismo

A chuva caiu tão abundante ao longo de toda a noite, que em alguns momentos tive a impressão de que alguém teria deixado por acidente o chuveiro ligado antes de dormir. O dia amanheceu ainda todo encharcado e cinza. O denso silêncio que que reinava por dentro e por fora de todas as coisas só era cortado pelo ranger terrível de uma furadeira ou qualquer outra ferramenta elétrica com a qual alguém realizava, talvez a umas três ou quatro casas longe daqui, logo pela manhã, algum trabalho furioso.
De repente me dei conta de que não quero mais escrever porra nenhuma. Quero continuar perdendo meu tempo apenas, da forma mais imbecil que pode haver. Um dia de folga por semana. É como uma concessão divina. Um dia perfeitamente maravilhoso em meio a uma rotina extenuante de trabalho sem sentido. Para não perder o costume, me levantei ainda cedo, café, pão com manteiga. Algumas coisas, afinal, ao não mudarem nunca, por mais que mude todo o resto, fazem com que o mundo se torne um lugar melhor. Em seguida verifico o e-mail e o facebook. Nada, cada vez menos. Ótimo.
Resolvi sair enquanto não havia chuva. É mais um daqueles momentos de espera. A sensação de que o tempo vai passando lento se torna mais clara. Parei num bar de esquina, pedi uma coxinha e uma Sub-zero. Era um canto pitoresco da cidade. Acaba o asfalto, começa o paralelepípedo. A mudança aparentemente brusca faz, na verdade, coerência com a igreja que fica no meio da praça.
O álcool produziu uma breve leveza na mente, propícia sobretudo para que fosse possível refletir acerca do desamparo e da inconsistência das coisas. O sacrifício da razão em busca da paz de espírito talvez seja, então, uma forma mais elevada de desapego, pensei. Ou de burrice.
O restante do dia passou todo de uma vez, lavado por litros de água que iam escorrendo fácil das nuvens. Retornando ao ponto de partida, permaneci sentado à mesa jogando fora diversas conversas com a lentidão de quem acredita que viverá para sempre.

quarta-feira, 5 de agosto de 2015

Mais um café

Resolvi desligar a televisão e sair mais um pouco. Na rua abri um livro que ultimamente tenho gostado bastante. Umas dez páginas eu li e me fizeram tão mal que tive que parar. O café era requentado, provavelmente feito ainda de manhã. Na pia atrás do balcão a moça ia desfiando com as unhas um frango semi cozido. Ela fazia um esforço extraordinário. "Tá bom o café?", "sim". Muitas vezes a mentira vale mais do que se pensa.
Voltando à rua, a muralha de prédios obriga a dar voltas inúteis. Coincidentemente me agrada sempre gastar o máximo possível de tempo no caminho entre uma coisa e outra. As pessoas nas calçadas formam labirintos feitos de partes móveis. Poucas sensações se comparam ao que acontece quando nos empenhamos em andar o mais rápido possível entre elas sem atropelamentos. São obstáculos difíceis, sobretudo, as crianças que às vezes se soltam das mães para quase sempre rolarem sem nenhuma direção, geralmente atraídas por pombas ou coisas sujas jogadas no chão. Nessa situação o desespero das mães eventualmente acaba resultando bofetadas na cara de suas crianças. Toda mãe odeia sua criança em algum momento, é apenas consequência inevitável do amor incondicional. Talvez construir um ser humano dentro do próprio corpo ao longo de nove meses, dificilmente seja uma tarefa possível de compreender.
Invariavelmente, algumas colheres de açúcar são derramadas pra fora da xícara. Esse tipo de acidente gera ocasião para que as formigas trabalhem sem trégua. Vão levando os grãos de açúcar até que se acabem todos. São longas filas de formiga, trabalhando em cima do balcão, descendo até o chão, entrando em buraquinhos. Durante a atividade muitas morrem. Algumas são mortas por nós, que por vezes as matamos por distração, outras porque elas incomodam realmente. Algumas pessoas acreditam que as formigas tem alma, como todas as coisas vivas. Nem por isso é tão aceitável matar gatos quanto é, sem dúvida, matar formigas. Bem, então algumas delas morrem durante o trabalho que, ainda assim, segue acontecendo. Não é possível, superficialmente, dizer que tipos de formigas são aquelas que saem da fila para fazer uma oração ao lado do corpo das formigas mortas. No entanto há muitas que apresentam essa inclinação. Prestam suas homenagens e voltam ao trabalho, regrado como sempre.     

quarta-feira, 29 de julho de 2015

A ressaca

Estava fazendo bastante frio, a conversa não estava especialmente agradável e mesmo a cerveja não chegava a tornar as coisas mais interessantes. Ainda assim continuei bebendo e bebendo até que se criou uma compulsão irracional que me impeliu a envenenar com álcool meu corpo para além de qualquer limite. Claro, no dia seguinte, acordei inteiramente estragado, de forma que me restou apenas voltar a dormir. Minha cabeça doía quase sem nenhuma trégua, e meu estomago estava cheio de enjoo.
Além disso minhas ideias estiveram, ao longo do tempo que passei dormindo, impregnadas de desespero. Sonhei que estava num hospital e que lá tinha uma moça com uma sonda enfiada no braço. Por  acidente eu acabei esbarrando nessa sonda, que  se desprendeu da veia, permitindo que o sangue fluísse abundante para fora enquanto eu corria até o banheiro para pegar pedaços de papel higiênico. Quando retornei a moça estava comendo todo aquele sangue, que era negro e espesso como piche. Ela estava com a boca suja daquela pasta pegajosa que escorria manchando toda sua roupa.
Quando acordei a cabeça ainda doía. Mas depois passou. Daí concluí que a autodestruição nessas condições existe como um ritual de purificação. No entanto, não precisou de muito para perceber também que a tranquilidade depende da proximidade da lembrança da dor e que, passado um tempo, ela se transforma em mera normalidade. Obviamente, a normalidade é o alimento do tédio, que por sua vez será motivo para o reinício do ciclo.  

quinta-feira, 23 de julho de 2015

Tomar um café na rua

Continuei andando e pensei que deveria parar para tomar um café. Durante o café acabei entendendo que embora o agora, no fim das contas, não seja traduzível num fato universal, tomando como referencial a própria certeza de viver o agora, não há, contudo, nenhuma razão para agir como se fosse o fim do mundo, ainda que seja. Pensei, então, em pedir uma cerveja, mas decidi guardar o dinheiro para necessidades indeterminadas mas previsíveis de algum dos futuros à caminho de fazer-se.
Quando me levantei do banco do bar me lembrei que socialmente não convém ficar parado, e daí resolvi andar. Queria continuar a leitura, mas me lembrei, em seguida, que eu acho que há poucos bancos nas praças. Como resposta imaginária indesejável, surgiu na mente que alguém poderia discordar dessa constatação, veementemente, tanto mais quanto nunca tenha desejado um lugar pra se sentar na rua. Outro bar. Se eu parar e pedir uma cerveja poderei sentar mais um pouco para ler. A cerveja dura mais que o café. Desisti.

quarta-feira, 15 de julho de 2015

Sabedoria e miséria

De todo modo, no caminho pra casa vi que do outro lado da rua, debaixo da marquise da padaria, estava sentado aquele mendigo que ultimamente tem circulado por aqui. Novamente me chamou a atenção o enorme pacote de papéis que ele carrega o tempo todo. Daí fiquei pensando que eu gostaria muito se aqueles papéis fossem, na verdade, obras filosóficas e anotações sobre o mundo. Se um dia for possível confirmar isso, estará realizado naquele velho solitário e faminto, sem dúvida, o absurdo e bonito ideal de uma vida que encontrou sua razão de ser na fruição desregrada e permanente de certas letras obscuras como fim em si.

quarta-feira, 8 de julho de 2015

Um dia de estudos


O esvaziamento nunca cessa de preencher todos os espaços. Ele vai avançando pela rua, sobre as casas, se alastrando rápido através da grama amarelada. Manter algo fixo é quase impossível, por mais de cinco ou dez minutos. 
Nenhum conhecido eu encontrei hoje durante o dia inteiro, a não ser por alguns muito distantes que me fazem um aceno com a cabeça e, em ocasiões raras, um sorriso dispensável. No facebook, pelo contrário, todo mundo está presente, dizendo freneticamente muitas coisa. Às vezes prefiro evitar contribuir com o acréscimo de inutilidades novas. Outras vezes, na verdade, parece que é justamente isso o que de melhor há para se fazer. 
Eu estava aqui esperando e esperando, todo bem vestido, ao meu modo. Está sol e eu uso tênis e calça jeans. Isso são fins de Março. Nada de mais. As pessoas estão falando suas coisas. Todas misturadas e óbvias. Eu sigo esperando. As pessoas passam todas aqui bem arrumadinhas, escondendo de si mesmas a própria estranheza. Porque as pessoas são estranhas, isso sem dúvida. Os conhecidos são poucos e eu às vezes desejo que sejam ainda menos. Que sejam às vezes zero.
O ar condicionado da biblioteca, por algum tempo, consegue me distrair um pouco. Assim que finalizo um parágrafo que parece ter me ocupado durante horas, é impossível para mim permanecer preso à cadeira, como sem dúvida seria recomendável que eu fizesse. É sempre complicado sair um pouco nesses dias em que me vem a convicção de que devo beber menos café. Fatalmente acabo quebrando a promessa. Graças a Deus não sou fumante ou destruiria, com bom pretexto, ao mesmo tempo meus pulmões e minhas possibilidades de escrever ao menos uma ou duas páginas por dia. 
É engraçado observar as pessoas. Elas estão cheias de defeitos tão evidentes na expressão, no modo de andar, de se vestir... Outras estão cheias de qualidades e as qualidades são todas imensamente inúteis.
Tudo está vazio. Algumas pessoas ainda passam e ao passarem dão uma sensação de que estão no lugar errado, ou só passando mesmo; realizando algumas últimas tarefas corriqueiras, mas indispensáveis, antes de irem para casa. A maior parte delas está sozinha, na típica, cotidiana, corriqueira atividade de trabalho. 
A mesa está quente, muito quente. Até agora pouco o sol estava assando-a sem nenhuma piedade.